Livro de poesias realizado com Bolsa de Incentivo à Criação Literária no Estado de São Paulo - Infantil e/ou Juvenil.

Edital PROAC no. 33/2015. 

PATACOADA

Ricardo Filho

Eu sou o poeta mais importante da minha rua, mesmo porque minha rua é curta.

                                                  José Paulo Paes

Em memória de José Paulo Paes, o poeta mais importante de muitas e longas ruas.

- 2016 -

POEMAS EMPENADOS

Empenado

 

Não tem pena, passarinho?

Bico apontado, pontudo

Avoa pro céu, sortudo

Vê lá de cima o caminho

 

Pena tem não, viajante?

Da gente aqui caminhando

Você nas nuvens voando

Chegando assim tão distante

 

Tem pena não, comandante?

Passeando ao pé da lua

Que redonda assim tão nua

Põe na vida alvejante

 

Tem pena sim, passarim!

Empenada criatura

Que sem pena a vida é dura

Tem muita pena de mim

Patacoada

 

Cara do pato.
Pata se cala.
Canela.

Pata do pato.
Pata se pela.
Panela.

Filha do pato.
Pata da vila.
Fivela.

Mata do pato.
Pata na sola.
Mazela.

Time do pato.
Pata da mula.
Tigela.

Sabiá Malandro

Sabiá
Laranjeira,
furta fruta
da fruteira.

Meu caqui,
bem-te-vi!

Sabiá
Carambola,
prova parvo
da gaiola.

E que mico,
tico-tico!

Sabiá
Seringueiro,
clama calma
no poleiro.

Eu espero,
quero-quero!

Sabiá
Samambaia,
rapta prata
na tocaia.

Vê que mau,
pica-pau!

Sabiá
Passarinho,
torce treco
no biquinho.

Que horror,
beija-flor!

Passarada

 

Avoa no espaço, sanhaço!

Agarra na saia, jandaia!

Se perde no céu, xexéu!

Engole esse grão, faisão!

Caminha pra mim, pinguim!

Cê tá maluco, macuco?

Pinta esse pano, tucano!

Não sai da linha, rolinha!

Que foi que eu fiz, perdiz?

Sai do armário, canário!

Mas que meleca, marreca!

Quem foi que te viu, tiziu?

Teu bico tem pó, socó!

Solta essa pá, guará!

Não fica mudo, bicudo!

Hei, tico-tico-rei!

Errei!

Periquito Faniquito

 

Periquito faniquito

 não para de farfalhar.

Arrulha um bagulho doido

 que eu nem sei decifrar.

 

Periquito esquisito,

não para de gargalhar.

Arruma um barulho doido

que não sei fazer calar.

 

Xô, periquito!

Chega de faniquito!

Sabiá apaixonado

 

Vire o disco, sabiá!

 Ela não ouve e nem pia

 com esse assobio tão chato.

 Ofereça rosa, alpiste,

 vá escrever poesia,

 um soneto sobre o mato.

 Faz bem quem insiste,

 mas serenata é antigo,

 velho mesmo, meu amigo.

 Não comove a namorada

 n’ outro lado da calçada.

 Vire o disco, sabiá!

Conta Outra!

 

Mamãe gansa,

me conta uma história?

Menino,

você não se cansa?

Eu conto, conto...

Você não se cansa?

Um contar tão sem fim...

Tá bom assim pra mim.

Marra de Marreco

 

O marreco da marreca

por merreca não morreu,

recebeu coice do burro

que resvalou de raspão.

 

Escorregou no curral,

o bico forrou de barro,

cobriu-se de carrapato,

perdeu logo a razão.

 

Correu rápido à forra

grasnando louco de raiva,

no burro quis dar um murro

o marreco fanfarrão.

 

Birrento e cheio de marra,

o quadrúpede emburrado

zurrou um zurro zurrado

com a força do coração.

 

O marreco da marreca

sumiu daquele barraco,

com medo rumou pra roça,

fugiu do burro grandão.

Galanice

 

O galo é galinha

O galo é galã

O galo é galante

O galo é gabola

Galo-doido!

Só canta de galo

Na noite de gala.

POEMAS DE BRINCAR

Travalingua

 

 

Paca pacata

Pataca

Pato pateta

Topete

Sapo sapeca

Sapato

Paca pacata

Tacape

Pato pateta

Tapete

Sapo sapeca

Repete

Reforma Ortográfica

 

 

- Cadê o seu chapeuzinho,

não me diga que perdeu?

- Quem, eu? Fui mais é roubado,

só me deixaram o nexo.

- Sigo agora meu voo,

estranhamente pelado,

saudoso do circunflexo.

Comendo letra

 

 

Sem prato

Sem rato

Sem ato

Sento

Seno

Sem

Se

S

S

S

S

S

S

S

S

S

S

S

Reticências em férias

 

 

 

Reticências tiraram férias,

                                        ☻☻☻                 

viajaram pras ilhas  F  I  J  I

Dúvida

 

 Será que o rio ri?

Eu rio!

Chapeuzinho Vermelho

 

Cadê a vovó que estava aqui?

O lobo comeu!

Cadê o lobo?

Fugiu pra floresta.

Cadê a floresta?

Passeando com Chapeuzinho.

Cadê Chapeuzinho?

Perdeu-se.

Cadê o caminho?

Tchau!

Sonho infantil

 

Se essa rua

Se essa rua fosse minha

Eu usava

Eu usava pra brincar

Tigelinha

Cabra-cega palitinho

Patinete

Serra-serra serrador...

 

Se essa rua

Se essa rua fosse minha

Eu usava

Eu usava pra brincar

Abobrinha

Pique-pega castelinho

Bambolê

Rema-rema remador

 

 

Se essa rua

Se essa rua fosse minha

Eu usava

Eu usava pra brincar

Violinha

Tique-taque chicotinho

Quebra pote

Joga-joga jogador

Parlendas

 

Protestante, pé de pinto

Quando morre vai pros quinto

Católico, pé de véu

Quando morre vai pro céu

 

Homem com homem

Mulher com mulher

Faca sem ponta

Galinha sem pé

 

E a gente só repetindo

Falando, dizendo, rindo

E a gente tão sem pensar

Dando sorte pro azar

 

Enganei um bobo

Na casca do ovo!

Joaquim José da Silva Xavier

 

Tira aqui meu siso,

Seu Tiradentes!

Dói muito

essa inconfidência

no dente.

Tira com liberdade,

ainda que tardia,

sem dó!

Arranca com alicate

meu disparate.

POEMAS DO TAMANHO DO MUNDO

Universo

 

A maior parte do universo

É verso.

Zero

 

Meu mundo caiu

 Rolou feito bola

No chão da escola.

Vento Triste

 

Vuuuuuuuuuuuuuuuuu!

Por que o vento tá triste?

Vai ver brigou com a brisa,

ou cansou de assoprar

 os machucados do mundo.

Mundão

 

 Mundo velho sem porteira

de metal ou de madeira.

Mundo gato mundo cão.

Mundo mundo grande mundo,

mundo imundo mundão.

Maior é meu coração.

Tempo

 

Como se fosse um globo,

dizem que gira o mundo.

Fazendo papel de bobo,

gastando cada segundo.

 

Minutos fora jogando,

comendo a vida inteira,

horas assim vai levando,

marcando o chão com poeira.

São João

 

O balão já subiu

Já caiu a garoa

O céu ninguém viu

Essa noite destoa

São João, São João

Apaga a fogueira

Do meu coração

POEMAS DOS BICHOS SEM PENA

A cigarra e o cigarro

 

O cigarro

da cigarra

vive aceso.

 

A cigarra

do cigarro

não se livra.

 

O cigarro

na cigarra

nicotina.

 

A cigarra

no cigarro

desafina.

 

Xô, cigarro!

Desagato

 

Gato gatuno

noturno

de toga

soturno

no turno

da noite

tunga.

Louva-diabinhos-da-Tasmânia

 

A diaba da Tasmânia

casou com um louva-a-deus.

A noiva chamava Tânia,

o noivo ateu Mateus.

 

Foi portanto no civil

essa união diferente.

E filhos tiveram mil,

botaram nome de gente.

 

Julio, Tadeu, Hemengarda

Ivo, Romeu, Raimundinha

Pedro, Pafúncio, Eduarda,

Júlia, Janice, Paulinha.

 

Cada nome tem sua vez

fala sempre mamãe Tânia,

O próximo Juarez

Louva-diabo-da-Tasmânia.

O Gato e o Rato

 

O gato viu o rato.

Correu, cercou, sorriu.

O rato viu o gato.

Correu, perdeu, sumiu.

 

Cadê o rato que tava aqui?

O gato engoliu.

Mosquitinho matusquela

 

Um aedes aegipty,

Mosquitinho matusquela.

Gripado e com sinusite,

Entrou por uma janela.

 

Torto, voando de lado,

no abajur foi se aquecer,

acabou todo queimado,

o que fez pra merecer?

 

Brilhando viu uma testa,

decidiu picar o dono,

embalado numa sesta,

roncando em pleno sono.

 

Recebeu tapa tão forte,

barulhento e estalado,

que se não fosse por sorte

tinha mesmo se acabado.

 

Sentiu apenas o vento,

a mão passou de raspão.

Fugiu dali pro relento,

resolveu lamber sabão.

Vagalume

 

Pirilampo vagalume

lanterninha a brilhar

risca de luz o negrume

dessa noite sem luar.

 

Vagalume pirilampo

faiscando sem parar

pipoca de luz o campo

acendendo meu olhar.

 

Vagalampo pirilume

você me confundiu

já não sei se a luz é lume

ou meu sonho que luziu. 

Crise no Reino da Bicharada

 

A crise também chegou

no reino da bicharada.

Elefante tá de tromba

sem dinheiro na carteira.

Implorou pra namorada,

formiga trabalhadeira,

algum pra poder pagar

uma aposta que fizera.

Quem conhece a formiguinha,

seu jeito todo enfezado,

sabe que ela não gosta

da palavra emprestado.

Se esforça, se acaba,

tem recursos na poupança,

guarda sempre pro inverno,

mas de lá não quis tirar

nem pra bem do namorado.

Puxa vida, que inferno!

Foi pro brejo a relação.

O gordo não fez por menos.

Foi procurar a cigarra,

caso antigo e conturbado,

dos tempos de boemia

quando na farra vivia.

Foi chegando de mansinho,

e cantou junto com ela,

bonito, bem afinado,

uma canção tão romântica,

que a mulher do Simão,

uma jovem chimpanzé,

rainha da confusão,

conhecida na floresta,

por pular de galho em galho,

dançou de rosto colado,

com um gorila galante,

sem desgrudar um instante,

fez com ele a maior festa.

Se o marido pagou mico,

coitadinho do macaco,

bem pior aconteceu

pro colorido tucano,

narigudo pé de valsa ,

bom de samba e de salsa,

que dançando no poleiro,

enlevado pelo som,

 despencou lá do coqueiro

em cima da tartaruga.

Foi tão grande o salseiro,

tantas ouviu da cascuda,

que sumiu, se pôs em fuga,

num total Deus nos acuda!

Pra terminar essa história,

Só falta mais um pouquinho.

Corre à boca pequena

no reino da bicharada

que a formiga tem agora

fofíssimo namorado.

E assim por não gostar

de bicho muito acanhado

foi logo se apaixonar

por um bom rinoceronte.

E como nessa floresta

fofoca rola de monte,

dizem que nosso elefante

e a cigarra namorada

tem sido vistos cantando

num bar da noite encantada.